Dimitry Mikerinnu Milevitch
Primeiro Premiê da Batávia, pequeno país do norte da Europa, país famoso por suas plantações de iogurte.
Milevitch ficou famoso por vários feitos ao longo do século XX – descobriu o bócio no seu quintal, aperfeiçoou a teoria atômica jogando biriba com Albert Einstein, aperfeiçoou a teoria quântica, inventou a cerveja choca, o sanduíche de três andares e também comeu a Grace Kelly, que, aliás, era um pitéuzinho.
Homem das culturas, falava diversas línguas, entre elas o inglês, o francês, o italiano, o português, o élfico e o klingom, afinal, nunca se sabe quando você pode ser abduzido.
Falava também o milevítio, idioma utilizado apenas por ele e seu cachorro, Basf.
Foi uma intensa personalidade cultural de sua época, tendo trocado uma extensa correspondência com Theodore Roosevelt, a quem chamava de “meu queijinho”, tido um caso com a mãe de Sigmund Freud, lutado boxe e telecath com Pablo Picasso, vencido os 100 metros rasos contra Matisse e Stephen Hawking, jogado biriba com Albert Einstein, Albert Sabin, Albert Camus e outros Alberts menos famosos, derrotado Muhammed Ali no xadrez-pulando-corda, apresentado os Beatles às drogas, Bob Dylan à Woody Guthrie, Elvis ao bambolê e Madre Tereza de Calcutá ao seu pau de óculos, dizendo “olha Madre, ele usa óculos, não é bonitinho?”.
Grande cosmopolita, foi o introdutor da televisão à Batávia, com a MileviTV, que passava sua biografia e clipes de sua autoria 24 horas por dia.
Introduziu também o rádio sem válvulas, os quadrinhos Disney em aramaico, o jogo do Mário, o jogo do copo e a sífilis, o que lhe valeu sua expulsão do país.
Fábio Ochôa
domingo, 28 de junho de 2009
Trabalho Lanza
Uma coisa pode ser dita antes de qualquer outra: o livro A Linguagem Secreta do Cinema, de Jean Claude Carrière é uma análise saborosa do processo de realização de um filme.
A um só tempo romântico e objetivo, temperando cada momento de leitura com reflexões e memórias vívidas sobre o processo de fazer cinema, calcado principalmente em seus anos de parceria com Luis Buñuel, figura onipresente nas entrelinhas da obra, junto com outros nomes igualmente admiráveis como Milos Forman, Jacques Tati, Eric Rohmer, entre outros.
Crônica e reflexão, crítica e memória, carinho, magia e realismo se misturam nas aproximadamente 200 páginas do livro, sem afetação e academicismo, afinal, a visão de Carrière é de um participante desta indústria e de admirador, não o de simples teórico.
É a visão real e prática, ainda que carinhosa, falando do processo criativo e técnico chamado fazer filmes, uma visão realista do cotidiano dos homens cuja profissão é construir diariamente ilusões.
Fabricantes de uma realidade superior, mais simples e especial que a nossa.
O livro inteiro foi lido em 2 dias, e quem dera que todo texto acadêmico fosse assim.
Nossa vida seria bem mais fácil.
Carrière tece ao longo do livro um sem-número de reflexões, no andar do texto, citarei as que considero mais relevantes, seguido de algumas considerações pessoais construídas a partir delas (afinal, isto não é só resenha, é resenha crítica).
Um dos pontos centrais do livro, e um conceito que é essencial entender para acompanhar grande parte das conclusões de Carrière, é a idéia do cinema não como simples reprodução mecânica da realidade, mas sim como realidade própria, com suas próprias regras de comportamento, funcionamento, tempo e espaço, porém, ainda assim, simulando ser a nossa realidade.
Algo situado na fronteira entre a fantasia plena e a verdade (seja lá o que isso signifique), sem pender demais nem para um lado, nem para o outro, situado em um curioso ponto de Lagrange.
Fruto de suas inovações técnicas, o cinema trouxe coisas nunca vistas: mais do que apenas o trem em movimento, trouxe o olhar escuso impossível de perceber na escuridão do teatro, o silêncio pleno, impossível de ser apreendido na vida real, o sussurro percebido.
A tecnologia começava a captar a sutileza que nossos olhos e ouvidos jamais poderiam captar em qualquer outra arte.
Não deixa de ser curioso, tendo isto em mente, que o cinema só começaria a ser visto como arte válida no final da segunda década do século XX e adentrando a terceira, principalmente com os filmes de Lang e Murnau e o cinema russo de Eisenstein.
Carrière aponta para a montagem como o fator que determinou o surgimento do cinema enquanto linguagem, fazendo ele evoluir de trucagem tecnológica para arte narrativa.
Através da montagem, o cinema pôde finalmente deixar de ser um mero recorte da vida cotidiana, uma curiosidade científica na qual nem mesmos seus criadores confiavam na durabilidade, e pôde se tornar uma das ferramentas artísticas mais potentes do século XX, moldando e definindo o modo de experimentar o século.
Não é por acaso que ele próprio foi usado como um importante elemento de colonização, (provavelmente não tão ideológica quanto tão adoram afirmar o pessoal da esquerda, mas sim, segundo a minha visão e a de Carrière, colonização econômica, pura e simples), citando no livro, como exemplo, as sessões realizadas na África, como prova “incontestável” da cultura européia sobre aquela.
Afinal, homens que fazem as imagens se moverem não devem ser homens, mas sim deuses.
O que ninguém levou em consideração, é que aquelas imagens não falavam nada aos africanos, ao seu universo. Devido ao distanciamento cotidiano, nem mesmo a gramática visual de montagem eles sequer compreendiam.
Um erro básico de todo colonizador que deseja impor uma cultura sobre outra: o cinema é como toda arte, sua linguagem tem que ser aprendida para suas histórias poderem ser entendidas e apreciadas.
Frisando sua visão da “realidade particular” do cinema, Carrière lista infinitos clichês cinematográficos, os quais nunca reparamos mas estão sempre presentes, os quais nunca ocorrem na vida real: o telefone que sempre, sempre, é atendido após dois toques, o homem que o atende e fica repetindo para o espectador o que está ouvindo do outro lado da linha, o homem que nunca confere o taxímetro e paga sempre sem receber troco, a porta de casa sempre destrancada, independente da vizinhança onde se more, fato de nunca ninguém ir ao banheiro, o sexo nunca mostrado, e quando mostrado, despido de uma certa brutalidade e hesitação natural, tudo isto que em momento algum estranhamos na tela, aceitando passivamente como uma realidade.
Talvez se fossem mostrados estes fatos banais do dia-a-dia, essas pequenas imperfeições cotidianas, o cinema se aproximaria demais de nós, perdendo aquela ilusão de realidade superior, essencial para preenchermos com nossas fantasias, o espaço certo para nos inserirmos no filme.
O cinema tem uma convenção própria, uma geografia própria e falsa e um senso de
tempo peculiar. Igualmente manufaturado, como tudo que a tela abrange.
Ele reescreve constantemente a sua própria e a nossa história, cria uma realidade muito mais crível a nós do que a mostrada nos livros escolares.
O exemplo de Carrière é oportuno: para mim Júlio César sempre teve o rosto de Marlon Brando, Robin Hood sempre vestiu as ridículas ceroulas verdes de Errol Flynn por mais que eu saiba que aquele traje é completamente incoerente com a época, não consigo em um primeiro momento imaginá-lo de outra forma e todos os cowboys do velho oeste sempre foram limpinhos como John Wayne.
O passado cheira bem, é higiênico, sempre, não existem sujeiras.
No fundo, o cinema, defende Carrière, é uma tentativa de ordenar a confusão de sentidos do mundo real, filtrá-los e mostrar apenas o que interessa, seria, por assim dizer, um mundo com sentido, uma parte da tendência humana de ordenar o mundo.
Um exemplo marcante é o do homem que enxerga sua mulher com o amante através da janela, reside aí de maneira explícita esta obsessão por ordem e lógica.
Como podemos, de maneira tão certa e baseados apenas em uma simples montagem, afirmar sem nenhuma informação prévia, que o homem observa sua mulher?
É nossa velha mania de ordenar, de criar conexões até onde elas não existem.
E em algum lugar não especificado dentro desta lógica, reside a magia do cinema.
O que determina o bom filme, ele deixa implícito em suas linhas, são os que operam nesta linha indistinguível, que possuem aquela qualidade, aquele algo mais não-definível que os deixa sobreviverem afetivamente na memória.
Se me perguntassem qual meu filme predileto, eu responderia As Sete Faces do Dr. Lao. Porque? Não sei, simplesmente, ele tem esta característica dúbia que o reforça em minha memória, que afetivamente me conquista até hoje. Mesmo sabendo que já vi infinitos filmes melhores em termos de roteiros, ou técnicos, ou até mesmo magia, este ainda é meu filme preferido.
O porquê é um mistério e se eu fosse racionalizar isto, escoaria toda a magia do filme, deixemos ele repousar nas brumas enevoadas então.
O cinema é o autêntico darwinismo artístico, onde a cada ano dezenas (ou centenas em caso de algum espectador muito assíduo) de obras competem para permanecer em nossa memória.
As mais incapacitadas, desaparecem rapidamente, prontamente extintas de nossas mentes. Os mais poderosos são os que conseguem se adaptar aos novos gostos, e os mais fortes, são aqueles que possuem este algo mais, que os fazem atravessar gerações (todos os cineastas que admiro tem isso, Spielberg, Hitchcock, Chaplin e Kubrick são bons exemplos de arte imune a tempo e gostos).
Outro ponto interessante levantado por Carrière, é a própria urgência em mudar, tão característica do cinema.
Ele nasceu com esse senso de urgência, tão típico do século XX, esta busca insaciável de superar a si mesmo constantemente, de sempre surpreender.
Seu ritmo se acelera vertiginosamente a cada década, chegando a rompantes ensurdecedores e estonteantes nesse novo milênio.
Na época que o livro foi escrito, esse processo ainda não havia chegado até os limites de hoje, com sua montagem-relâmpago, de piscou/perdeu.
Me lembro de um comentário de José Wilker durante o Oscar (cerca de 2004, por aí) quando Homem-aranha 2 foi indicado para efeitos visuais e trechos do filme passaram na TV.
Wilker comentou que não fazia mal-juízo deste tipo de cinema, mas simplesmente não conseguia assistir a este tipo de filme.
O porquê?
“são rápidos demais”, “não consigo absorver”, explicou ele.
Na época achei bem curioso o comentário, foi, acho, a primeira vez que constatei que existia um outro tipo de público, acostumado a um ritmo não tão intenso de cinema.
Me lembrei deste pequeno episódio ao ler no livro o trecho sobre a conversa entre Carrière e o velho montador que demonstrava a ele a diferença entre a montagem “sem pressa” de 1920 e a montagem “objetiva” de 1950.
A pressa em se contar uma história aumentou naquela diferença de 30 anos que ele demonstrara, e de lá para cá aumentou mais ainda. Não chega a ser um absurdo completo supor que no futuro filmes não passem de trailers (de fato, há determinados trailers que praticamente contam a história do filme inteiro).
Há duas décadas os filmes ganharam um grande inimigo: o controle remoto na televisão. Demorou demais para algo acontecer? Bem, vamos ver o que há no outro canal.
Hoje, embora por motivos óbvios o filme não aborde isto, a situação está um pouco pior com as infinitas opções de filmes para ver e programas para fazer (não estamos mais prisioneiros do vídeo e da TV, e antes disto, apenas do cinema, antigamente, especulo, que nos detíamos mais em cada filme porque era só o que havia para ver) com mais opções, mais pressa em apreciar cada espetáculo, descartá-lo e seguir para o próximo, afinal há um mundo inteiro lá fora, a fila é grande e as opções são infinitas.
Como que prenunciando o problema, Carrière alerta que o problema deste bombardeio caótico e rápido de imagens a que estamos cada vez mais nos acostumando como linguagem, é o pouco tempo que ele deixa para o subtexto, para as coisas não-ditas no filme, tão essenciais para serem apreendidas quanto o que é dito nele.
Sem ela o cinema vira uma montanha-russa, realmente emocionante mas no fim das contas, uma experiência superficial, indo pouco além da casca, perdendo por completo seu maior trunfo: a força da participação afetiva do espectador.
Sem ela, o cinema vira pouco mais que uma desculpa para a pura técnica, a história, um mero suporte lógico para a montagem e efeitos.
No livro, a questão da linguagem também passa por outra questão: o desgaste narrativo da mídia, com mais de 100 anos de história (e histórias) o cinema tem uma mania obsessiva em superar a si mesmo através da tecnologia, esquecendo-se um pouco do seu interior, do que está sendo contado.
Este trecho me remete a comentários de Peter Greenaway, onde ele afirmava que o cinema preocupa-se muito com como estava narrando e pouco com o que estava narrando. No fim das contas, seguia Greenaway, a despeito de todas as inovações técnicas, ainda assistimos filmes da mesma maneira de 100 anos atrás, na escuridão, passivos observando uma luz.
E hoje a mesma tecnologia tão condenada por ele, permite que o cinema acene com outras possibilidades completamente inexploradas.
A se pensar.
Muito se fala sobre a permanência do cinema, Carrière dedica algumas linhas a afirmar ora sua efemeridade (pautada sempre pelo sucesso ou fracasso comercial), quanto por sua durabilidade material se comparada com outras artes.
Uma constatação pessoal: tenho sérias dúvidas quanto à esta suposta “permanência histórica” das obras cinematográficas, se pegarmos um exemplar de Dom Quixote que tenha sido editado há 200 anos atrás, e o papel estiver em condições decentes e nosso domínio de espanhol for razoável, Dom Quixote estará garantido para nós enquanto leitores
Mas e quanto ao cinema? Supondo que encontremos um DVD, ou VHS, ou Blu-ray de Dom Quixote daqui há 200 anos, existirão aparelhos capazes de reproduzir DVD daqui a 200 anos? Capazes de rodar VHS, Blu-ray, o que for? Aliás, existirão TVs ou projetores daqui há 200 anos?
São confiáveis obras que se condicionam apenas na tecnologia vigente (sendo que esta mesma muda toda hora) para sua posteridade?
Duvido muito. Talvez no fim das contas, o cinema venha a ser uma arte datada e perecível como afirmou Carrière, embora não pelos mesmos motivos apontados por ele.
Carrière toca na mesma tecla, ainda que por outros argumentos. Dedicando um texto inteiro a acusar o cinema de ter perdido muito de seu poder de invenção, acomodado na trucagem simples e no ofício de repetir o que já foi estabelecido.
Outro ponto interessante levantado por Carrière é a maestria dos grandes mestres, entre eles o tão citado Buñuel em abrir mão do experimentalismo e deixar uma linguagem oculta, simplificada, o que talvez seja a grande chave por trás de megassucessos do cinema atual como Dois Filhos de Francisco e Menino da Fronteira.
Bem, e o que é a maior bilheteria mundial, Titanic, além de uma história simples, contada de maneira igualmente simples e descomplicada, palatável á qualquer tipo de público.
Outro ponto que concordo plenamente com Carrière: para escrever sobre cinema, você tem que passar por ele. Saber como é feito um filme.
É tremendamente maçante ler sobre cinema através de filósofos de que não fazem a menor idéia de como funciona uma moviola, ou quais os mecanismos reais de elaboração de um roteiro.
É o tipo de coisa que soa a uma arrogância e um pouco-caso intelectual imenso.
Aliás escrever para o cinema, no livro é um capítulo à parte.
A verdadeira escrita cinematográfica, é um ato de humildade, uma crisálida, como sugerida no livro, de onde brotará o filme.
O roteiro para poder virar filme, inevitavelmente sucumbirá no processo.
E neste processo é essencial, o respeito ao espectador, para que sua voz seja ouvida. É necessário o espaço para ele inserir seus sonhos, o cinema nunca pode contemplar o próprio umbigo. Sempre tem que respeitar este acordo tácito.
Escrever não é um ato de liberdade. É um ato de extrema disciplina.
Quase uma servidão voluntária. Um prazeroso exercício de frustração.
Sugere acertadamente, a imersão na vida real antes de escrever, a importância da pesquisa e da preparação, antes do primeiro ato criativo.
Aliás, outra palavra chave do livro, sem a criatividade, o cinema vira apenas repetição técnica, um moto-contínuo morto e inútil em sua principal função: criar emoções autênticas em um mundo embotado.
O que fazemos no fim das contas é isto.
Não vendemos imagens.
Vendemos experiências e emoções.
É o perigo da perícia, segundo o livro, dela sufocar a imaginação ou anestesiar sua força em prol do já comprovado, testado, do mais seguro.
Sei também que filmes são produtos comerciais, o equilíbrio é delicado, mas desta mesma força emotiva o cinema necessita para poder se reinventar e consequentemente vender ingressos, vender novas emoções.
No fim das contas, nosso próprio repertório de histórias humanas é ao mesmo tempo limitado e infinito.
É uma constante busca por novos meios de dizer velhas coisas.
O roteirista se enquadra, conforme bem coloca o livro, dentro de uma longa tradição de contadores de histórias. Preenche uma necessidade humana por histórias.
Elas são portanto, um papel vital para nossa definição.
Um elo vital da corrente.
Um exemplo tocante do livro, é o do cinema-humano. Exemplifica bem esta obsessão que temos com histórias, do homem na Hungria que assistia filmes proibidos no exterior e era convidado para jantares, onde contava em detalhes, sem perder uma linha, todo o filme que assistira. Puro Ray Bradbury.
E os convidados, de olhos fechados ouvindo as palavras do homem, que tipo de filme assistiam?
No fim das contas, como todo obra, cada filme é uma experiência individual em direção a nós mesmos, às coisas que nos interessam e definem enquanto pessoas.
A história que você ouve não é a mesma que a pessoa conta.
Ainda segue sendo uma revelação, profunda e particular.
Fábio Ochôa
A um só tempo romântico e objetivo, temperando cada momento de leitura com reflexões e memórias vívidas sobre o processo de fazer cinema, calcado principalmente em seus anos de parceria com Luis Buñuel, figura onipresente nas entrelinhas da obra, junto com outros nomes igualmente admiráveis como Milos Forman, Jacques Tati, Eric Rohmer, entre outros.
Crônica e reflexão, crítica e memória, carinho, magia e realismo se misturam nas aproximadamente 200 páginas do livro, sem afetação e academicismo, afinal, a visão de Carrière é de um participante desta indústria e de admirador, não o de simples teórico.
É a visão real e prática, ainda que carinhosa, falando do processo criativo e técnico chamado fazer filmes, uma visão realista do cotidiano dos homens cuja profissão é construir diariamente ilusões.
Fabricantes de uma realidade superior, mais simples e especial que a nossa.
O livro inteiro foi lido em 2 dias, e quem dera que todo texto acadêmico fosse assim.
Nossa vida seria bem mais fácil.
Carrière tece ao longo do livro um sem-número de reflexões, no andar do texto, citarei as que considero mais relevantes, seguido de algumas considerações pessoais construídas a partir delas (afinal, isto não é só resenha, é resenha crítica).
Um dos pontos centrais do livro, e um conceito que é essencial entender para acompanhar grande parte das conclusões de Carrière, é a idéia do cinema não como simples reprodução mecânica da realidade, mas sim como realidade própria, com suas próprias regras de comportamento, funcionamento, tempo e espaço, porém, ainda assim, simulando ser a nossa realidade.
Algo situado na fronteira entre a fantasia plena e a verdade (seja lá o que isso signifique), sem pender demais nem para um lado, nem para o outro, situado em um curioso ponto de Lagrange.
Fruto de suas inovações técnicas, o cinema trouxe coisas nunca vistas: mais do que apenas o trem em movimento, trouxe o olhar escuso impossível de perceber na escuridão do teatro, o silêncio pleno, impossível de ser apreendido na vida real, o sussurro percebido.
A tecnologia começava a captar a sutileza que nossos olhos e ouvidos jamais poderiam captar em qualquer outra arte.
Não deixa de ser curioso, tendo isto em mente, que o cinema só começaria a ser visto como arte válida no final da segunda década do século XX e adentrando a terceira, principalmente com os filmes de Lang e Murnau e o cinema russo de Eisenstein.
Carrière aponta para a montagem como o fator que determinou o surgimento do cinema enquanto linguagem, fazendo ele evoluir de trucagem tecnológica para arte narrativa.
Através da montagem, o cinema pôde finalmente deixar de ser um mero recorte da vida cotidiana, uma curiosidade científica na qual nem mesmos seus criadores confiavam na durabilidade, e pôde se tornar uma das ferramentas artísticas mais potentes do século XX, moldando e definindo o modo de experimentar o século.
Não é por acaso que ele próprio foi usado como um importante elemento de colonização, (provavelmente não tão ideológica quanto tão adoram afirmar o pessoal da esquerda, mas sim, segundo a minha visão e a de Carrière, colonização econômica, pura e simples), citando no livro, como exemplo, as sessões realizadas na África, como prova “incontestável” da cultura européia sobre aquela.
Afinal, homens que fazem as imagens se moverem não devem ser homens, mas sim deuses.
O que ninguém levou em consideração, é que aquelas imagens não falavam nada aos africanos, ao seu universo. Devido ao distanciamento cotidiano, nem mesmo a gramática visual de montagem eles sequer compreendiam.
Um erro básico de todo colonizador que deseja impor uma cultura sobre outra: o cinema é como toda arte, sua linguagem tem que ser aprendida para suas histórias poderem ser entendidas e apreciadas.
Frisando sua visão da “realidade particular” do cinema, Carrière lista infinitos clichês cinematográficos, os quais nunca reparamos mas estão sempre presentes, os quais nunca ocorrem na vida real: o telefone que sempre, sempre, é atendido após dois toques, o homem que o atende e fica repetindo para o espectador o que está ouvindo do outro lado da linha, o homem que nunca confere o taxímetro e paga sempre sem receber troco, a porta de casa sempre destrancada, independente da vizinhança onde se more, fato de nunca ninguém ir ao banheiro, o sexo nunca mostrado, e quando mostrado, despido de uma certa brutalidade e hesitação natural, tudo isto que em momento algum estranhamos na tela, aceitando passivamente como uma realidade.
Talvez se fossem mostrados estes fatos banais do dia-a-dia, essas pequenas imperfeições cotidianas, o cinema se aproximaria demais de nós, perdendo aquela ilusão de realidade superior, essencial para preenchermos com nossas fantasias, o espaço certo para nos inserirmos no filme.
O cinema tem uma convenção própria, uma geografia própria e falsa e um senso de
tempo peculiar. Igualmente manufaturado, como tudo que a tela abrange.
Ele reescreve constantemente a sua própria e a nossa história, cria uma realidade muito mais crível a nós do que a mostrada nos livros escolares.
O exemplo de Carrière é oportuno: para mim Júlio César sempre teve o rosto de Marlon Brando, Robin Hood sempre vestiu as ridículas ceroulas verdes de Errol Flynn por mais que eu saiba que aquele traje é completamente incoerente com a época, não consigo em um primeiro momento imaginá-lo de outra forma e todos os cowboys do velho oeste sempre foram limpinhos como John Wayne.
O passado cheira bem, é higiênico, sempre, não existem sujeiras.
No fundo, o cinema, defende Carrière, é uma tentativa de ordenar a confusão de sentidos do mundo real, filtrá-los e mostrar apenas o que interessa, seria, por assim dizer, um mundo com sentido, uma parte da tendência humana de ordenar o mundo.
Um exemplo marcante é o do homem que enxerga sua mulher com o amante através da janela, reside aí de maneira explícita esta obsessão por ordem e lógica.
Como podemos, de maneira tão certa e baseados apenas em uma simples montagem, afirmar sem nenhuma informação prévia, que o homem observa sua mulher?
É nossa velha mania de ordenar, de criar conexões até onde elas não existem.
E em algum lugar não especificado dentro desta lógica, reside a magia do cinema.
O que determina o bom filme, ele deixa implícito em suas linhas, são os que operam nesta linha indistinguível, que possuem aquela qualidade, aquele algo mais não-definível que os deixa sobreviverem afetivamente na memória.
Se me perguntassem qual meu filme predileto, eu responderia As Sete Faces do Dr. Lao. Porque? Não sei, simplesmente, ele tem esta característica dúbia que o reforça em minha memória, que afetivamente me conquista até hoje. Mesmo sabendo que já vi infinitos filmes melhores em termos de roteiros, ou técnicos, ou até mesmo magia, este ainda é meu filme preferido.
O porquê é um mistério e se eu fosse racionalizar isto, escoaria toda a magia do filme, deixemos ele repousar nas brumas enevoadas então.
O cinema é o autêntico darwinismo artístico, onde a cada ano dezenas (ou centenas em caso de algum espectador muito assíduo) de obras competem para permanecer em nossa memória.
As mais incapacitadas, desaparecem rapidamente, prontamente extintas de nossas mentes. Os mais poderosos são os que conseguem se adaptar aos novos gostos, e os mais fortes, são aqueles que possuem este algo mais, que os fazem atravessar gerações (todos os cineastas que admiro tem isso, Spielberg, Hitchcock, Chaplin e Kubrick são bons exemplos de arte imune a tempo e gostos).
Outro ponto interessante levantado por Carrière, é a própria urgência em mudar, tão característica do cinema.
Ele nasceu com esse senso de urgência, tão típico do século XX, esta busca insaciável de superar a si mesmo constantemente, de sempre surpreender.
Seu ritmo se acelera vertiginosamente a cada década, chegando a rompantes ensurdecedores e estonteantes nesse novo milênio.
Na época que o livro foi escrito, esse processo ainda não havia chegado até os limites de hoje, com sua montagem-relâmpago, de piscou/perdeu.
Me lembro de um comentário de José Wilker durante o Oscar (cerca de 2004, por aí) quando Homem-aranha 2 foi indicado para efeitos visuais e trechos do filme passaram na TV.
Wilker comentou que não fazia mal-juízo deste tipo de cinema, mas simplesmente não conseguia assistir a este tipo de filme.
O porquê?
“são rápidos demais”, “não consigo absorver”, explicou ele.
Na época achei bem curioso o comentário, foi, acho, a primeira vez que constatei que existia um outro tipo de público, acostumado a um ritmo não tão intenso de cinema.
Me lembrei deste pequeno episódio ao ler no livro o trecho sobre a conversa entre Carrière e o velho montador que demonstrava a ele a diferença entre a montagem “sem pressa” de 1920 e a montagem “objetiva” de 1950.
A pressa em se contar uma história aumentou naquela diferença de 30 anos que ele demonstrara, e de lá para cá aumentou mais ainda. Não chega a ser um absurdo completo supor que no futuro filmes não passem de trailers (de fato, há determinados trailers que praticamente contam a história do filme inteiro).
Há duas décadas os filmes ganharam um grande inimigo: o controle remoto na televisão. Demorou demais para algo acontecer? Bem, vamos ver o que há no outro canal.
Hoje, embora por motivos óbvios o filme não aborde isto, a situação está um pouco pior com as infinitas opções de filmes para ver e programas para fazer (não estamos mais prisioneiros do vídeo e da TV, e antes disto, apenas do cinema, antigamente, especulo, que nos detíamos mais em cada filme porque era só o que havia para ver) com mais opções, mais pressa em apreciar cada espetáculo, descartá-lo e seguir para o próximo, afinal há um mundo inteiro lá fora, a fila é grande e as opções são infinitas.
Como que prenunciando o problema, Carrière alerta que o problema deste bombardeio caótico e rápido de imagens a que estamos cada vez mais nos acostumando como linguagem, é o pouco tempo que ele deixa para o subtexto, para as coisas não-ditas no filme, tão essenciais para serem apreendidas quanto o que é dito nele.
Sem ela o cinema vira uma montanha-russa, realmente emocionante mas no fim das contas, uma experiência superficial, indo pouco além da casca, perdendo por completo seu maior trunfo: a força da participação afetiva do espectador.
Sem ela, o cinema vira pouco mais que uma desculpa para a pura técnica, a história, um mero suporte lógico para a montagem e efeitos.
No livro, a questão da linguagem também passa por outra questão: o desgaste narrativo da mídia, com mais de 100 anos de história (e histórias) o cinema tem uma mania obsessiva em superar a si mesmo através da tecnologia, esquecendo-se um pouco do seu interior, do que está sendo contado.
Este trecho me remete a comentários de Peter Greenaway, onde ele afirmava que o cinema preocupa-se muito com como estava narrando e pouco com o que estava narrando. No fim das contas, seguia Greenaway, a despeito de todas as inovações técnicas, ainda assistimos filmes da mesma maneira de 100 anos atrás, na escuridão, passivos observando uma luz.
E hoje a mesma tecnologia tão condenada por ele, permite que o cinema acene com outras possibilidades completamente inexploradas.
A se pensar.
Muito se fala sobre a permanência do cinema, Carrière dedica algumas linhas a afirmar ora sua efemeridade (pautada sempre pelo sucesso ou fracasso comercial), quanto por sua durabilidade material se comparada com outras artes.
Uma constatação pessoal: tenho sérias dúvidas quanto à esta suposta “permanência histórica” das obras cinematográficas, se pegarmos um exemplar de Dom Quixote que tenha sido editado há 200 anos atrás, e o papel estiver em condições decentes e nosso domínio de espanhol for razoável, Dom Quixote estará garantido para nós enquanto leitores
Mas e quanto ao cinema? Supondo que encontremos um DVD, ou VHS, ou Blu-ray de Dom Quixote daqui há 200 anos, existirão aparelhos capazes de reproduzir DVD daqui a 200 anos? Capazes de rodar VHS, Blu-ray, o que for? Aliás, existirão TVs ou projetores daqui há 200 anos?
São confiáveis obras que se condicionam apenas na tecnologia vigente (sendo que esta mesma muda toda hora) para sua posteridade?
Duvido muito. Talvez no fim das contas, o cinema venha a ser uma arte datada e perecível como afirmou Carrière, embora não pelos mesmos motivos apontados por ele.
Carrière toca na mesma tecla, ainda que por outros argumentos. Dedicando um texto inteiro a acusar o cinema de ter perdido muito de seu poder de invenção, acomodado na trucagem simples e no ofício de repetir o que já foi estabelecido.
Outro ponto interessante levantado por Carrière é a maestria dos grandes mestres, entre eles o tão citado Buñuel em abrir mão do experimentalismo e deixar uma linguagem oculta, simplificada, o que talvez seja a grande chave por trás de megassucessos do cinema atual como Dois Filhos de Francisco e Menino da Fronteira.
Bem, e o que é a maior bilheteria mundial, Titanic, além de uma história simples, contada de maneira igualmente simples e descomplicada, palatável á qualquer tipo de público.
Outro ponto que concordo plenamente com Carrière: para escrever sobre cinema, você tem que passar por ele. Saber como é feito um filme.
É tremendamente maçante ler sobre cinema através de filósofos de que não fazem a menor idéia de como funciona uma moviola, ou quais os mecanismos reais de elaboração de um roteiro.
É o tipo de coisa que soa a uma arrogância e um pouco-caso intelectual imenso.
Aliás escrever para o cinema, no livro é um capítulo à parte.
A verdadeira escrita cinematográfica, é um ato de humildade, uma crisálida, como sugerida no livro, de onde brotará o filme.
O roteiro para poder virar filme, inevitavelmente sucumbirá no processo.
E neste processo é essencial, o respeito ao espectador, para que sua voz seja ouvida. É necessário o espaço para ele inserir seus sonhos, o cinema nunca pode contemplar o próprio umbigo. Sempre tem que respeitar este acordo tácito.
Escrever não é um ato de liberdade. É um ato de extrema disciplina.
Quase uma servidão voluntária. Um prazeroso exercício de frustração.
Sugere acertadamente, a imersão na vida real antes de escrever, a importância da pesquisa e da preparação, antes do primeiro ato criativo.
Aliás, outra palavra chave do livro, sem a criatividade, o cinema vira apenas repetição técnica, um moto-contínuo morto e inútil em sua principal função: criar emoções autênticas em um mundo embotado.
O que fazemos no fim das contas é isto.
Não vendemos imagens.
Vendemos experiências e emoções.
É o perigo da perícia, segundo o livro, dela sufocar a imaginação ou anestesiar sua força em prol do já comprovado, testado, do mais seguro.
Sei também que filmes são produtos comerciais, o equilíbrio é delicado, mas desta mesma força emotiva o cinema necessita para poder se reinventar e consequentemente vender ingressos, vender novas emoções.
No fim das contas, nosso próprio repertório de histórias humanas é ao mesmo tempo limitado e infinito.
É uma constante busca por novos meios de dizer velhas coisas.
O roteirista se enquadra, conforme bem coloca o livro, dentro de uma longa tradição de contadores de histórias. Preenche uma necessidade humana por histórias.
Elas são portanto, um papel vital para nossa definição.
Um elo vital da corrente.
Um exemplo tocante do livro, é o do cinema-humano. Exemplifica bem esta obsessão que temos com histórias, do homem na Hungria que assistia filmes proibidos no exterior e era convidado para jantares, onde contava em detalhes, sem perder uma linha, todo o filme que assistira. Puro Ray Bradbury.
E os convidados, de olhos fechados ouvindo as palavras do homem, que tipo de filme assistiam?
No fim das contas, como todo obra, cada filme é uma experiência individual em direção a nós mesmos, às coisas que nos interessam e definem enquanto pessoas.
A história que você ouve não é a mesma que a pessoa conta.
Ainda segue sendo uma revelação, profunda e particular.
Fábio Ochôa
sábado, 10 de janeiro de 2009
O Repouso do Guerreiro
As peças da arma estalavam sutilmente enquanto se encaixavam, cada pequeno clique era uma nota abafada pelo vento e percebida apenas pelas pontas dos dedos.
Os dedos, os mesmos dedos que já semi-congelados, enegrecidos por baixo das luvas, seguiam executando, automáticos a mesma ordem de movimentos, como se fosse o homem a máquina, e não a pistola em suas mãos.
Montar.
Desmontar.
Talvez para provar a si mesmo que ainda era capaz.
Montar.
Desmontar.
Que os anos de ócio e friagem ártica ainda não haviam lhe roubado –inclementes- a destreza.
A rama fez um claque, a culatra refletia o branco do chão glacial. E o vento continuava a tentar derrubar seu corpo, soprando pequenos flocos brancos em seu rosto, quase apagando a fogueira feita na rua.
Um pouco mais, entraria na velha cabana de madeira e beberia alguma coisa quente.
E em 3 segundos contados e 6 movimentos, a arma estava pronta mais uma vez.
Montar.
Desmontar.
Se seu rosto granítico fosse acostumado a portar expressões, o homem sorriria. Mas isto era pedir demais de Jimmy McConnaughety Cuttlas, o tira mais durão de Los Angeles, nos últimos três anos patrulhando solitário a imensidão do Ártico.
Desmontar.
Ironicamente, Jimmy era o pequeno perdedor na escola, algo que ninguém poderia imaginar e se alguém eventualmente pudesse, bem, com certeza não teria uma vida muito longa.
Às vezes, na solidão do Ártico, nas longas noites que duravam meses, Jimmy se permitia lembrar o dia em que tudo começou.
Como quando o gordo Tob quebrou seus óculos com uma bolada certeira durante uma partida de caçador. Isso, somado aos insultos diários e ao fato de ter todas as suas figurinhas dos Menudos queimadas pelos colegas de escola, despertou em Jimmy uma fúria uterina, já latente em seus genes.
Naquele dia, sobre as cinzas queimadas de seu álbum de figurinhas, enquanto os restos das fotos de Robbie Rosa e Ricky Martin flutuavam ao seu redor, Jimmy ergueu o punho aos céus e fez um juramento:
Que a partir daquele dia... Nenhum meliante, vândalo, achacador ou criminoso, escaparia impune enquanto ele vivesse. Nenhum.
Feito isso, destruiu seus bonecos, arrancou pôsteres de Star Trek e Caverna do Dragão de seu quarto e durante os próximos 18 anos, Jimmy encarou o mais árduo treinamento que um ser humano pôde suportar, sempre temperado por uma vontade férrea e um ódio frio a queimar como fogo brando em seu interior.
Aos 12 anos, era boina-verde, aos 14, serviu no exército israelense, aos 15, virou guerrilheiro palestino, aos 16, era o atacante absoluto do time da escola, famoso e imbatível por quebrar a defesa e os pescoços dos adversários aplicando golpes de krav maga neles.
Porém, na vida tudo tem um preço. Com tanta preparação física e o tempo e dedicação que isso exigia, suas notas despencaram vertiginosamente. Então, Jimmy surrou o diretor da escola com um taco de baseball e uma galinha morta garantindo assim um diploma aos 18 anos com honra ao mérito, sem repetir matéria alguma nunca mais.
Foi então que começou sua lendária carreira na polícia de Los Angeles.
Caminhou com dificuldade no nada branco, em direção à única cabina telefônica existente no local. A porta rangeu em protesto enquanto abria, derrubando montículos de neve em seus pés, retirou as luvas e discou com dificuldade utilizando os dedos dormentes. Enquanto a ligação se completava, montou e desmontou a arma mais três vezes nos nove segundos seguintes.
Uma voz se fez ouvir do outro lado da linha.
- Alaska Communications, boa tarde.
Fechou os olhos, apoiou-se contra o vidro e desejou com todas suas forças, que desta vez desse certo. Retirou do casaco e folheou seu caderninho de endereços, quantos casos ali presentes ele já não havia resolvido?
- Poderia por favor me ligar com Pablo Maroto? 5555.3458, Los Angeles, Califórnia?
- Um minuto, senhor.
A chamada demorou mais vinte segundos para se completar, nesse meio tempo, Jimmy aproveitou para ver sua respiração congelar contra o vidro da cabina e montar e desmontar sua arma mais sete vezes.
- Alô? – uma voz com forte sotaque portenho se fez ouvir do outro lado da péssima conexão. Fora, o vento zunia, ensurdecedor, para melhor ouvir, Cuttlas enfiou um dos dedos dentro do seu ouvido.
- Alô? Pablo?
- Si, quien habla?
- Un amigo Pablito. Escutcha, continuas traficando?
- E quíem puede querer saber?
- Un amigo, un amigo, Pablito, escuta, tengo uma dica quiente para ustéd, quentíssima, uma nueva rota totalmente segura. To-tal-mien-te.
O silêncio imperava do outro lado da linha. Jimmy podia ouvir a respiração. Ele iria topar, sabia que iria. Prosseguiu, como um vendedor de carros usados, como um agente imobiliário prestes a vender a casa dos seus sonhos.
- Alaska, Pablito mi querido, Alaska. Esta é la rueta ideal pára usted, meridíano 358, totalmente segura y... alô? Pablito?
Olhou o telefone incrédulo. Ele havia desligado.
Suspirou no ar gelado, devagar tornou a colocar o telefone no gancho e vestiu as luvas, saindo então a derrapar no chão branco. Falhou, é verdade, mas pelo menos ele tentara.
Sim senhor.
Os sinais não mentiam, iria ser mais um dia chato na interminável planície branca.
Para distrair um pouco, passou a meia hora seguinte atirando em garrafas de cerveja congeladas. Às vezes, para dar um pouco mais de graça, costumava desenhar pequenos rostos sorridentes nos cascos, às vezes costumava até mesmo a dar nomes a elas.
Passou a abandonar esta prática quando percebeu que a cada três garrafas, uma acabava sendo batizada de Tob.
O tempo não respeitava as leis da física no Ártico.
Lá todos os dias passavam inexoravelmente devagar.
Sua única e eventual companhia era Nanook, um baixinho e insondável esquimó que morava em uma tenda feita de madeira, pele de urso e gelo, situada a uns 500 passos da rude cabana de Cuttlas.
Lembrou-se do fracasso em ensinar Nanook a jogar baseball, aparentemente o esquimó, cumprindo seu fadário de esquimó, só se interessava em pescar peixes e conversar com as focas.
Sobre o que eles falavam, ou se as focas sequer entendiam Nanook, Cuttlas nunca soube. Mas podia jurar que eles riam dele quando ele passava.
Malditos esquimós, malditas focas.
Em Los Angeles as coisas eram bem diferentes.
Lá ninguém ria dele.
Ao longe, Nanook avançava pela neve indiferente, mancando levemente e carregando dois peixes dentro de seu balde congelado. Pelo visto, havia sido boa a pescaria.
Nanook, com seu barco forrado de pele de foca e suas centenas de palavras para a cor branca.
Cuttlas guardou a arma no coldre, e apontou o facho de sua lanterna para o rosto do pequeno homem. Ele apenas acenou em resposta, simpático, cerrando os olhos puxados.
- Alto! – berrou Cuttlas se aproximando. – Averiguação padrão!
De lanterna em punho, pediu para examinar as botas dele, afinal, nunca se sabe. Ele poderia esconder crack ali dentro, alguma faca ou até mesmo uma evidência de algum crime brutal. Nanook, solícito como quem nasceu para isto, depositou o balde no chão, descalçou as botas e as passou para Jimmy, que as averiguou com o cuidado exemplar de sempre.
Era um pequeno ritual, um hábito entre ambos.
Não encontrou nada comprometedor ali.
- Tudo certo, pode passar.
Nanook sorriu seu sorriso desdentado, calçou as botas, apanhou seu balde de peixes e seguiu.
Jimmy ficou o observando até ele entrar na sua tenda.
Alisava a culatra do revólver sem perceber. As mãos agindo por automatismo.
Relembrou mentalmente: deveria redobrar seus esforços em aprender a língua de Nanook, poderia ser útil caso fosse necessário interrogá-lo, tanto como acusado ou como testemunha.
Suspirou e perdeu 30 minutos olhando para o mar congelado. O dia que era como todos os dias custava a passar.
Em Los Angeles as coisas eram bem diferentes.
Em Los Angeles Jimmy Cuttlas desbaratava quadrilhas, desmontava células terroristas e desmembrava eventuais psicopatas em menos de 24 horas, em Los Angeles, nenhum dia era como o outro para o melhor policial da cidade.
Em Los Angeles Jimmy saia constantemente com estrelas de cinema e todos os filmes de ação, desde Bradock- Super Comando, passando por Comando Para Matar, Inferno Vermelho e Máquina Mortífera eram biografias suas disfarçadas.
Até Mad Max também foi inspirado em um trecho de sua vida, quando Cuttlas ainda era policial rodoviário, mas Jimmy não gostou do resultado original e exigiu que os produtores modificassem o resultado final. Coisa que eles acataram sem discutir.
O que estaria fazendo Nanook a estas horas?
Comendo seus malditos peixes crus, Cuttlas apostaria sua bola esquerda congelada como era isso.
Peixes crus.
Como Cuttlas os detestava.
Tanto como os garotos da escola.
E o maldito gordo Tob.
Por algum motivo qualquer, sempre se lembrava dele, quando estava fuzilando meliantes com sua Desert Eagle, houvera muitos colegas pentelhos, mas o rosto que surgia sempre era do gordo Tob.
Ele soube depois que o ele se casara e tinha uma oficina mecânica decadente no sul da Califórnia.
Sempre pensou em conhecer o sul da Califórnia e lhe fazer uma visita, para conversarem, beberem algumas cervejas e relembrarem os velhos tempos.
E depois, quem sabe, fazer alguns joguinhos instrutivos, utilizando uma Baretta, uma barra de ferro e uns alicates.
Mas o maldito serviço nunca deixou tempo para ele tirar férias.
Era difícil ser o melhor tira da Califórnia.
Ficou jogando cartas sozinho por mais um tempo, outro hábito que adquirira para espantar a modorra dos dias, enquanto lá fora seguia o inverno eterno. Eventualmente espiava pela janela Nanook cozinhar seus peixes.
Um pouco mais e ele iria pegar um fígado cru para comer, malditos esquimós com seus hábitos alienígenas. Maldita força policial invejosa.
Malditos coleguinhas de aula.
Acompanhando o repentino impulso, calçou suas botas, apanhou os dardos esparramados por sobre a mesa, bebeu rápido um último gole de café, abriu a porta e avançou escorregando pela neve gélida.
- Nanook.- gritou contra o vento.
Enfurnado em sua tenda, iluminado pela lamparina de óleo de foca e abaixo do crânio de um urso polar, a única peça de decoração ali, ele sorriu seu sorriso desdentado e alcançou o peixe que estava comendo para Cuttlas, que, por sua vez, o recusou.
O nativo deu de ombros, ajeitou o grosso casaco e seguiu comendo.
Cuttlas esperou até ele parar de mastigar, para ter de novo sua atenção. Gesticulou com os dardos.
- Nanook, quer fazer algo divertido? Atirar dardos em mim, como o pessoal da delegacia fazia? Algo para passar o tempo?
Dito isto, cravou o dardo na própria pele para efeito de demonstração, Cuttlas tinha uma resistência impressionante à dor, costumava servir de alvo para distrair os colegas.
Nanook sorriu de novo seu sorriso desdentado e esticou novamente o peixe para ele.
Novamente Cuttlas o recusou, suspirou e foi embora dali.
Nanook deu outra mordida.
O esquimó era outro inútil, Cuttlas voltou para seu casebre de madeira. Ficou contemplando a neve, frustrado. Havia tentado ensinar Nanook a atirar com sua pistola, mas nem isso ele se interessara em aprender.
Tinha esperanças que algum dia Nanook atirasse em alguém e isso lhe desse algum caso para resolver, mas óbvio, isto não ocorrera.
E os dias seguiram se passando em tédio gelado.
Esquimó burro.
Porque as coisas tinham que ocorrer assim?
O que fizera Cuttlas de errado além de fazer seu serviço bem demais?
“Bem Cuttlas, tendo em vista a sua excelente folha de serviços, em comemoração ao milésimo caso solucionado, andei conversando com os rapazes do departamento e resolvemos lhe promover. Uma... mudança de ares, um lugar onde um rapaz que nem você, que persegue uma criminalidade zero se sentirá em casa.”
“Parece ótimo senhor, o que o senhor quer dizer com... mudança de ares?”
“Você vai ser transferido para o Alaska, filho.”
O pessoal do departamento deu uma festa quando ele foi embora. Bando de cretinos. Bando de incompetentes.
Nenhum deles se comparava a Cuttlas. Nenhum.
Observou de novo Nanook pela janela, na esperança de que talvez desta vez ele tivesse fazendo algo errado, ocultando algum cadáver na neve, ou quiçá vendendo crack para algum pingüim.
Não estava, pacato, o esquimó comia despreocupadamente seu peixe.
Cuttlas apertou suas mãos até os nós dos dedos estalarem. Sem perceber, automático, montou e desmontou a arma mais uma vez.
Nanook deu outra mordida no peixe, sorrindo satisfeito consigo próprio.
Cuttlas gastou mais 15 minutos jogando dardos contra a parede e mais 48 lendo pela 47ª vez a única edição da revista Life que trouxera para o Ártico.
Olhava pela janela de novo. O esquimó acenou para ele.
Cuttlas piscou, focando melhor a visão.
E não é que em alguns momentos Nanook até lhe lembrava muito o gordo Tob?
Fábio Ochôa
Os dedos, os mesmos dedos que já semi-congelados, enegrecidos por baixo das luvas, seguiam executando, automáticos a mesma ordem de movimentos, como se fosse o homem a máquina, e não a pistola em suas mãos.
Montar.
Desmontar.
Talvez para provar a si mesmo que ainda era capaz.
Montar.
Desmontar.
Que os anos de ócio e friagem ártica ainda não haviam lhe roubado –inclementes- a destreza.
A rama fez um claque, a culatra refletia o branco do chão glacial. E o vento continuava a tentar derrubar seu corpo, soprando pequenos flocos brancos em seu rosto, quase apagando a fogueira feita na rua.
Um pouco mais, entraria na velha cabana de madeira e beberia alguma coisa quente.
E em 3 segundos contados e 6 movimentos, a arma estava pronta mais uma vez.
Montar.
Desmontar.
Se seu rosto granítico fosse acostumado a portar expressões, o homem sorriria. Mas isto era pedir demais de Jimmy McConnaughety Cuttlas, o tira mais durão de Los Angeles, nos últimos três anos patrulhando solitário a imensidão do Ártico.
Desmontar.
Ironicamente, Jimmy era o pequeno perdedor na escola, algo que ninguém poderia imaginar e se alguém eventualmente pudesse, bem, com certeza não teria uma vida muito longa.
Às vezes, na solidão do Ártico, nas longas noites que duravam meses, Jimmy se permitia lembrar o dia em que tudo começou.
Como quando o gordo Tob quebrou seus óculos com uma bolada certeira durante uma partida de caçador. Isso, somado aos insultos diários e ao fato de ter todas as suas figurinhas dos Menudos queimadas pelos colegas de escola, despertou em Jimmy uma fúria uterina, já latente em seus genes.
Naquele dia, sobre as cinzas queimadas de seu álbum de figurinhas, enquanto os restos das fotos de Robbie Rosa e Ricky Martin flutuavam ao seu redor, Jimmy ergueu o punho aos céus e fez um juramento:
Que a partir daquele dia... Nenhum meliante, vândalo, achacador ou criminoso, escaparia impune enquanto ele vivesse. Nenhum.
Feito isso, destruiu seus bonecos, arrancou pôsteres de Star Trek e Caverna do Dragão de seu quarto e durante os próximos 18 anos, Jimmy encarou o mais árduo treinamento que um ser humano pôde suportar, sempre temperado por uma vontade férrea e um ódio frio a queimar como fogo brando em seu interior.
Aos 12 anos, era boina-verde, aos 14, serviu no exército israelense, aos 15, virou guerrilheiro palestino, aos 16, era o atacante absoluto do time da escola, famoso e imbatível por quebrar a defesa e os pescoços dos adversários aplicando golpes de krav maga neles.
Porém, na vida tudo tem um preço. Com tanta preparação física e o tempo e dedicação que isso exigia, suas notas despencaram vertiginosamente. Então, Jimmy surrou o diretor da escola com um taco de baseball e uma galinha morta garantindo assim um diploma aos 18 anos com honra ao mérito, sem repetir matéria alguma nunca mais.
Foi então que começou sua lendária carreira na polícia de Los Angeles.
Caminhou com dificuldade no nada branco, em direção à única cabina telefônica existente no local. A porta rangeu em protesto enquanto abria, derrubando montículos de neve em seus pés, retirou as luvas e discou com dificuldade utilizando os dedos dormentes. Enquanto a ligação se completava, montou e desmontou a arma mais três vezes nos nove segundos seguintes.
Uma voz se fez ouvir do outro lado da linha.
- Alaska Communications, boa tarde.
Fechou os olhos, apoiou-se contra o vidro e desejou com todas suas forças, que desta vez desse certo. Retirou do casaco e folheou seu caderninho de endereços, quantos casos ali presentes ele já não havia resolvido?
- Poderia por favor me ligar com Pablo Maroto? 5555.3458, Los Angeles, Califórnia?
- Um minuto, senhor.
A chamada demorou mais vinte segundos para se completar, nesse meio tempo, Jimmy aproveitou para ver sua respiração congelar contra o vidro da cabina e montar e desmontar sua arma mais sete vezes.
- Alô? – uma voz com forte sotaque portenho se fez ouvir do outro lado da péssima conexão. Fora, o vento zunia, ensurdecedor, para melhor ouvir, Cuttlas enfiou um dos dedos dentro do seu ouvido.
- Alô? Pablo?
- Si, quien habla?
- Un amigo Pablito. Escutcha, continuas traficando?
- E quíem puede querer saber?
- Un amigo, un amigo, Pablito, escuta, tengo uma dica quiente para ustéd, quentíssima, uma nueva rota totalmente segura. To-tal-mien-te.
O silêncio imperava do outro lado da linha. Jimmy podia ouvir a respiração. Ele iria topar, sabia que iria. Prosseguiu, como um vendedor de carros usados, como um agente imobiliário prestes a vender a casa dos seus sonhos.
- Alaska, Pablito mi querido, Alaska. Esta é la rueta ideal pára usted, meridíano 358, totalmente segura y... alô? Pablito?
Olhou o telefone incrédulo. Ele havia desligado.
Suspirou no ar gelado, devagar tornou a colocar o telefone no gancho e vestiu as luvas, saindo então a derrapar no chão branco. Falhou, é verdade, mas pelo menos ele tentara.
Sim senhor.
Os sinais não mentiam, iria ser mais um dia chato na interminável planície branca.
Para distrair um pouco, passou a meia hora seguinte atirando em garrafas de cerveja congeladas. Às vezes, para dar um pouco mais de graça, costumava desenhar pequenos rostos sorridentes nos cascos, às vezes costumava até mesmo a dar nomes a elas.
Passou a abandonar esta prática quando percebeu que a cada três garrafas, uma acabava sendo batizada de Tob.
O tempo não respeitava as leis da física no Ártico.
Lá todos os dias passavam inexoravelmente devagar.
Sua única e eventual companhia era Nanook, um baixinho e insondável esquimó que morava em uma tenda feita de madeira, pele de urso e gelo, situada a uns 500 passos da rude cabana de Cuttlas.
Lembrou-se do fracasso em ensinar Nanook a jogar baseball, aparentemente o esquimó, cumprindo seu fadário de esquimó, só se interessava em pescar peixes e conversar com as focas.
Sobre o que eles falavam, ou se as focas sequer entendiam Nanook, Cuttlas nunca soube. Mas podia jurar que eles riam dele quando ele passava.
Malditos esquimós, malditas focas.
Em Los Angeles as coisas eram bem diferentes.
Lá ninguém ria dele.
Ao longe, Nanook avançava pela neve indiferente, mancando levemente e carregando dois peixes dentro de seu balde congelado. Pelo visto, havia sido boa a pescaria.
Nanook, com seu barco forrado de pele de foca e suas centenas de palavras para a cor branca.
Cuttlas guardou a arma no coldre, e apontou o facho de sua lanterna para o rosto do pequeno homem. Ele apenas acenou em resposta, simpático, cerrando os olhos puxados.
- Alto! – berrou Cuttlas se aproximando. – Averiguação padrão!
De lanterna em punho, pediu para examinar as botas dele, afinal, nunca se sabe. Ele poderia esconder crack ali dentro, alguma faca ou até mesmo uma evidência de algum crime brutal. Nanook, solícito como quem nasceu para isto, depositou o balde no chão, descalçou as botas e as passou para Jimmy, que as averiguou com o cuidado exemplar de sempre.
Era um pequeno ritual, um hábito entre ambos.
Não encontrou nada comprometedor ali.
- Tudo certo, pode passar.
Nanook sorriu seu sorriso desdentado, calçou as botas, apanhou seu balde de peixes e seguiu.
Jimmy ficou o observando até ele entrar na sua tenda.
Alisava a culatra do revólver sem perceber. As mãos agindo por automatismo.
Relembrou mentalmente: deveria redobrar seus esforços em aprender a língua de Nanook, poderia ser útil caso fosse necessário interrogá-lo, tanto como acusado ou como testemunha.
Suspirou e perdeu 30 minutos olhando para o mar congelado. O dia que era como todos os dias custava a passar.
Em Los Angeles as coisas eram bem diferentes.
Em Los Angeles Jimmy Cuttlas desbaratava quadrilhas, desmontava células terroristas e desmembrava eventuais psicopatas em menos de 24 horas, em Los Angeles, nenhum dia era como o outro para o melhor policial da cidade.
Em Los Angeles Jimmy saia constantemente com estrelas de cinema e todos os filmes de ação, desde Bradock- Super Comando, passando por Comando Para Matar, Inferno Vermelho e Máquina Mortífera eram biografias suas disfarçadas.
Até Mad Max também foi inspirado em um trecho de sua vida, quando Cuttlas ainda era policial rodoviário, mas Jimmy não gostou do resultado original e exigiu que os produtores modificassem o resultado final. Coisa que eles acataram sem discutir.
O que estaria fazendo Nanook a estas horas?
Comendo seus malditos peixes crus, Cuttlas apostaria sua bola esquerda congelada como era isso.
Peixes crus.
Como Cuttlas os detestava.
Tanto como os garotos da escola.
E o maldito gordo Tob.
Por algum motivo qualquer, sempre se lembrava dele, quando estava fuzilando meliantes com sua Desert Eagle, houvera muitos colegas pentelhos, mas o rosto que surgia sempre era do gordo Tob.
Ele soube depois que o ele se casara e tinha uma oficina mecânica decadente no sul da Califórnia.
Sempre pensou em conhecer o sul da Califórnia e lhe fazer uma visita, para conversarem, beberem algumas cervejas e relembrarem os velhos tempos.
E depois, quem sabe, fazer alguns joguinhos instrutivos, utilizando uma Baretta, uma barra de ferro e uns alicates.
Mas o maldito serviço nunca deixou tempo para ele tirar férias.
Era difícil ser o melhor tira da Califórnia.
Ficou jogando cartas sozinho por mais um tempo, outro hábito que adquirira para espantar a modorra dos dias, enquanto lá fora seguia o inverno eterno. Eventualmente espiava pela janela Nanook cozinhar seus peixes.
Um pouco mais e ele iria pegar um fígado cru para comer, malditos esquimós com seus hábitos alienígenas. Maldita força policial invejosa.
Malditos coleguinhas de aula.
Acompanhando o repentino impulso, calçou suas botas, apanhou os dardos esparramados por sobre a mesa, bebeu rápido um último gole de café, abriu a porta e avançou escorregando pela neve gélida.
- Nanook.- gritou contra o vento.
Enfurnado em sua tenda, iluminado pela lamparina de óleo de foca e abaixo do crânio de um urso polar, a única peça de decoração ali, ele sorriu seu sorriso desdentado e alcançou o peixe que estava comendo para Cuttlas, que, por sua vez, o recusou.
O nativo deu de ombros, ajeitou o grosso casaco e seguiu comendo.
Cuttlas esperou até ele parar de mastigar, para ter de novo sua atenção. Gesticulou com os dardos.
- Nanook, quer fazer algo divertido? Atirar dardos em mim, como o pessoal da delegacia fazia? Algo para passar o tempo?
Dito isto, cravou o dardo na própria pele para efeito de demonstração, Cuttlas tinha uma resistência impressionante à dor, costumava servir de alvo para distrair os colegas.
Nanook sorriu de novo seu sorriso desdentado e esticou novamente o peixe para ele.
Novamente Cuttlas o recusou, suspirou e foi embora dali.
Nanook deu outra mordida.
O esquimó era outro inútil, Cuttlas voltou para seu casebre de madeira. Ficou contemplando a neve, frustrado. Havia tentado ensinar Nanook a atirar com sua pistola, mas nem isso ele se interessara em aprender.
Tinha esperanças que algum dia Nanook atirasse em alguém e isso lhe desse algum caso para resolver, mas óbvio, isto não ocorrera.
E os dias seguiram se passando em tédio gelado.
Esquimó burro.
Porque as coisas tinham que ocorrer assim?
O que fizera Cuttlas de errado além de fazer seu serviço bem demais?
“Bem Cuttlas, tendo em vista a sua excelente folha de serviços, em comemoração ao milésimo caso solucionado, andei conversando com os rapazes do departamento e resolvemos lhe promover. Uma... mudança de ares, um lugar onde um rapaz que nem você, que persegue uma criminalidade zero se sentirá em casa.”
“Parece ótimo senhor, o que o senhor quer dizer com... mudança de ares?”
“Você vai ser transferido para o Alaska, filho.”
O pessoal do departamento deu uma festa quando ele foi embora. Bando de cretinos. Bando de incompetentes.
Nenhum deles se comparava a Cuttlas. Nenhum.
Observou de novo Nanook pela janela, na esperança de que talvez desta vez ele tivesse fazendo algo errado, ocultando algum cadáver na neve, ou quiçá vendendo crack para algum pingüim.
Não estava, pacato, o esquimó comia despreocupadamente seu peixe.
Cuttlas apertou suas mãos até os nós dos dedos estalarem. Sem perceber, automático, montou e desmontou a arma mais uma vez.
Nanook deu outra mordida no peixe, sorrindo satisfeito consigo próprio.
Cuttlas gastou mais 15 minutos jogando dardos contra a parede e mais 48 lendo pela 47ª vez a única edição da revista Life que trouxera para o Ártico.
Olhava pela janela de novo. O esquimó acenou para ele.
Cuttlas piscou, focando melhor a visão.
E não é que em alguns momentos Nanook até lhe lembrava muito o gordo Tob?
Fábio Ochôa
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